domingo, 21 de setembro de 2014

Evangélicos em foco



                            Malafaia e Luther King duas faces da mesma moeda?


Achei digna de comentar a matéria em questão


Homofóbicos, cortejados pela presidente, fundamentalistas.
Massa de manobra de Silas Malafaia, conservadores,determinantes no segundo turno das eleições. De tanto que se falou dos evangélicos nas últimas semanas, nos jornais nas redes sociais, talvez caiba uma pergunta: afinal quem são os evangélicos?

A resposta mais  honesta não podia ser mais frustrante: os evangélicos são qualquer pessoa, ou todo mundo ou mais especificamente: ninguém. São uma abstração, uma caricatura pintada do que vemos zapeando pelos canais abertos misturada ao que lemos de bizarro nos tabloides da internet com o que o nosso preconceito manda reforçar. Dizer que o" voto dos evangélicos decidirá a eleição" é tão estúpido quanto dizer que a obviedade de 22% decidirá a eleição. Dizer que são preconceituosos significa dizer que o ser humano é preconceituoso. É não dizer nada na verdade.

Acreditar que há uma hegemonia de pensamento, de comportamento ou de doutrina evangélica é em parte repetir o que Silas malafaia diz, mas é em parte desconhecer a história. A diversidade de pensamento é a razão de existir da Reforma Protestante. E continuou sendo pelos séculos seguintes, quando as igrejas reformadas do século XVI deram origem ao movimento evangélico, aos pentecostais, e estes aos neo- pentecostais, todos microdivididos, até o limite possível, graças novamente a diversidade de pensamento, sob forma de governo, vocação, pequenos e grandes pontos doutrinários.
E boa parte destas denominações não tem nem sequer organização "central" nem presidência muito menos representantes possíveis, com decisões sendo tomadas nas comunidades locais, por votação democrática.

Assim como não existe "os evangélicos" não existe "os assembleianos" dizer que o Silas malafaia é o papa da Marina Silva como disse Leonardo Boff, apenas porque ambos são membros da Assembleia de Deus, é ignorar que por trás dos 12,3 milhões de membros detectados pelo IBGE a denominação é rachada entre ministérios Belém, Madureira,Bom Retiro e Perus e diversos outros cada um com sua politicagem e sua aplicação doutrinária e a Assembleia Vitória em Cristo de Silas Malafaia nem pertence a convenção geral das Assembleias de Deus no Brasil.

Ignorância parecida se manifesta em relação ao  uso do termo "fundamentalista" como sinônimo de literalista "aquele que é incapaz de metaforizar as verdades morais dos livros da Bíblia". A teologia cristã debate á dois mil anos sobre a observação, interpretação e aplicação dos escritos sagrados, quais são alegóricos, quais são poesias e quais devem ser tomados ao pé da letra. O deputado Jean Wyllys colunista da Carta Capital do alto de alguma autoridade teológica presumida, já chegou a conclusão de o que não for leitura liberal, é fundamentalista, e portanto uma ameaça as minorias.

Isto nada tem de verdade, pois em meio a multifacetação das igejas de tradição evangélicas, existe as chamadas "inclusivas" mas há diversas igrejas históricas tradicionais, teologicamente ortodoxas que acreditam nos absolutos da Sola Scriptura" da reforma Protestante, mas que tem  política acolhedora com as minorias. Algumas criaram pastorais para tratar da questão homossexual, outras trabalham para integra-los em seus quadros leigos ou ainda como disse o pastor Ed René Kivitz, estão mais dispostos a aprender como tratar uma pessoa que está diante de mim dizendo que foi rejeitado pela família, pela igreja do que discutir a literalidade dos textos do Antigo Testamento.

O panorama da questão pode ser melhor entendido entre a cruz e o arco íris: A complexa relação dos cristão com a homoafetividade, que tive o prazer de editar. nele o pastor batista e sociólogo americano Tony Campolo ex: conselheiro do ex: presidente Bill Clinton que distingue união civil de casamento diz: Governo existe para garantir direitos das pessoas e casamento é um sacramento da igreja, portanto o governo não deve decidir quem recebe ou não esse sacramento.

Entre evangélicos brasileiros existe os que pensam como o pastor Campolo e os que creem que uniões civis com implicações patrimonias e status de família deve se estender não apenas para homossexuais como para primos, irmãos ou quem quer que se estenda como família. Há quem defenda o acolhimento dos gays nas igrejas, mas há quem defenda o celibato entre eles. há quem mesmo sabendo que mais da metade das famílias brasileiras já não são no formato pai -mãe e filho mas ainda luta para restabelecer esse padrão idealizado. Há sim quem acredite que o seu
 modo de vida e conjuntos de  doutrinas são sim fundamentalista. Há os que enquanto discutimos aqui sobre essas questões, estão mais preocupados se a melhor tradução do grego é João ferreira de Almeida ou a NVI.

Quando o PSB divulgou na sexta-feira seu partido de governo Silas Malafaia no Twitter gritava em Caps Locker o pastor marcos Botelho elogiava Marina Silva por receber o LGBT  e suas reivindicações com discernimento e visão de um estado laico que é a sua bandeira.

Botelho não representa os evangélicos porque não existem " os evangélicos" mas existe o Pastor Marcos Botelho e ele é evangélico. Assim como existe Willian Lane Craig o filósofo que convida periodicamente Richar Dawkins para um debate público, do qual sempre se esquiva, existe o geneticista Francis Collins vencendo o William Award da sociedade americana de genética humana como existe o presidente Jimmy Carter dando aula na escola dominical e sendo entrevista para a capa da Rolling Stone, como existe o pastor congregacional inglês John Harvard tirando dinheiro do próprio bolso para fundar uma Universidade "Glória á Deus" nos estados Unidos que leva seu sobre nome até hoje, existe o pastor batista Martin Luther King como maior ativista de todos os tempos, existe o jovem paulista marcos Gomes o melhor profissional de Marketing do mundo pedindo licença para falar uma coisa sobre os evangélicos existe o Feliciano, Edir Macedo, Aline Barros, Thales Roberto, o Silas Malafaia e o mercado gospel. Como existe bancada evangélica como existem os que lutaram pela  separação da Igreja do Estado na constituição e existem os que acreditam que levar Jesus cristo para a política é trabalhar não para si mas para os menos favorecidos.

Existe o amor, a justiça, assim como o preconceito, o dogmatismo o engano, o medo, a vaidade e a corrupção. Não porque somos evangélicos, mas porque somos humanos.


Ricardo Alexandre: jornalista e escritor e blogueiro, prêmio jabuti 2010, ex diretor de redação das revistas Bizz, Época São Pulo e Trip e é membro da igreja Batista Água Viva em Vinhedo, interior de São Paulo.






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